quarta-feira, 29 de março de 2017

Poema para Gaiô

Aqui eu e Gaiô no dia do lançamento de seu livro


A Gaiô é uma pessoa-poema. Delicada, elegante, irradia paz e serenidade.
Uma artista de manifestação multipla.
Boa e certa companhia nos nossos encontros pela arte.
Uma mãe de família, mulher plena, avó.
Estar perto dela é sentir o perfume de tudo isso que Gaiô é.
A pedido de seu marido , João, fiz este poema para uma homenagem.
Quem conhece a Gaiô sabe que tudo que está aí é verdade.

Gaiô

É da espécie Deusa-Fada

Dizem que fala com as coisas
argila, tinta, fotografias, lápis
e elas lhe contam o que querem ser
e como querem estar

Daí ela as transforma no que chama de Arte

É ordenadora de palavras
Alinha-as com uma boa idéia
de modo a soarem belas juntas
e elas a obedecem sem questionar
poetando melodiosas

Dizem, também, que canta
Agora sei que sim
Canta com alma
o encanto do bem

É do João e o João é dela
Mas ele é generoso
concede-nos sua bela dama
que se derrama em ternuras

Recolho minha parte:
abraços e sorrisos de boa amizade
imagens ternas para a  eternidade

                                                       Eliane Ratier para Gaiô em março de 2016 

domingo, 26 de março de 2017

Livros- As Pessoas que matamos ao longo da vida- Tamiris Volcean



Conheci Tamiris e sua literatura num programa legal que aconteceu na Biblioteca Padre Euclides, aqui em Ribeirão Preto, quando o editor e autor Nocelli participou de um bate papo com a Tamiris e o Marcelo Maluf.
Tamiris é muito jovem e se expressa com um texto cheio de verdade e poesia.
Uma voz inteligente de sua geração!
Seus recursos são modernos e envolvem até trilha sonora.
Levanta suas bandeiras para eliminar os degraus que separam os diferentes.
Agradavelmente surpresa com o estilo e o conteúdo de seu livro.
" As pessoas" é um livro de crônicas que fala de assuntos universais que passam , em algum momento, pela cabeça de todos, respeitados a cronologia e o momento social e histórico.
Lembra Marta Medeiros, lembra Carpinejar, mas é Tamiris mesmo.
Viva!!

"Eram quase sete de sexta feira ao som de Jeffersonn Airplane, Comin' Back to Me .
...
Olhei para o banco vazio e meu carro, apesar da lataria preta, iluminou-se por dentro: eu esetava exatamente da maneira como gostaria e deveria estar. Não me faltava nada. Eu estava em meu lugar , sem teimar em driblar a solidão.
...
 O semáforo esverdeou e eu sorri por dentro... Planejei minha noite de sexta.
Minha lista de filmes para assistir antes de morrer ia sair da gaveta de novo.
 Troquei a melodia triste. Eram quase oito de seta feita ao som de The Rolling Stone, She's a rainbow, e a minha companhia era aquela que me fazia sentir completa: eu mesma.
Em tempos frios, é você que preenche o vazio. "

As  pessoas que matamos ao longo da vida- Tamiris Volcean- Editora Reformatório- ( edição bonita!!)- o meu comprei no encontro, mas penso que temos em livrarias, com certeza pela internet e na editora.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Dia da Mulher



Amigos, vocês sabem, faço parte da Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto, a Alarp e , para variar, me envolvo para além de ser.
Lá tenho o cargo de Secretária. Eu lidando com papéis e organizações!
Vai ver que é para validar a herança do avô, que tinha o quartinho de bagunça mais organizado que já vi, e do pai, que exerceu a função burocrática no trabalho.
Bem, mas o fato não é este.
Gosto demais do que faço!!
O fato é que me coube, por ocasião da festividade comemorativa do Dia da Mulher, preparar e apresentar um histórico da data que agora divido com vocês.
Assim mando meu abraço a todos, mulheres e homens.

    Hoje a Alarp comemora o Dia Internacional da Mulher numa noite de arte, na colaboração entre homens e mulheres, artistas que se admiram, portadores de habilidades que se complementam.

   Coube-me a explicação sobre o Dia da Mulher e tomo aqui, como roteiro a música de Milton Nascimento e Fernando Brandt, Maria , Maria.

   Maria somos todos nós, os que sofremos humanamente.

   A história do dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher,  está intimamente ligada à entrada da mulher no mercado de trabalho formal, mulher como mão de obra assalariada.

   O capitalismo é o pai deste ato.

  Com o aumento da população nos centros urbanos e a intensificação do  comércio à partir do século XVI começa a haver mais demanda para os bens de produção.
No século XVIII aparecem as máquinas e o trabalho começa a acontecer em fábricas, com destaque para a indústria têxtil.

  Com a automação, diminui a necessidade de força física e mulheres e crianças começam a ser preferidas para determinadas tarefas que exigiam delicadeza na lida.

  As mulheres vão ao trabalho para manterem-se e aos seus lares.

  Algumas são sozinhas, viúvas, solteiras. Outras, casadas, mães, vão ao trabalho para obter renda para sobrevivência já que os homens são também operários mal remunerados.

  As trabalhadoras tem salários muito baixos, extensas cargas horárias,  são submetidas a ambientes insalubres e grande pressão de produção, sofrendo ameaças, castigos e abusos morais e sexuais.

   Lia-se em um cartaz na parede de uma tecelagem inglesa, onde o turno de trabalho era de 14horas à temperatura de 29 graus, com as janelas fechadas  “ é proibido ir beber água para não perder tempo” “ será multado quem abrir uma janela, se lavar durante o turno, assoviar, acender a luz a gás cedo demais”

-" Maria , Maria, é um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta, uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta"-

   Começam assim os movimentos das instituições profissionais por melhores condições de trabalho e redução da carga horária.

   A luta era protagonizada por mulheres em nome de todos os trabalhadores, protestos e principalmente, greves, todas gerando confrontos que eram violentamente reprimidos pelos policiais.

- "Maria, maria, é o som , é a cor , é o suor,  é a dose mais forte e lenta de uma gente que ri quando deve chorar e não vive apenas aguenta".-

  Foi assim em 1810 na Inglaterra com ganhos reais de redução de jornada.

  Foi assim em 1847 nos Estados Unidos, onde muitas trabalhadoras, após um protesto, morreram em um incêndio de grandes proporções.

  Ainda não era o 8 de março.  

  E foi em 1910,  num congresso de mulheres socialistas, que a data foi comemorada pela primeira vez, num reconhecimento à capacidade de mobilização feminina.  Era agosto.

  Em 1917, na Rússia, mais um evento marcaria a participação das mulheres num protesto por melhores condições de trabalho e contra a entrada da Rússia czarista na primeira guerra mundial, precipitando a revolução.

   Era então 8 de março.

- "Mas é preciso ter força , é preciso ter raça , é preciso ter gana sempre, quem traz no corpo a marca, Maria, Maria mistura a dor e a alegria"-

  Em 1932 as mulheres conquistaram o direito ao voto no Brasil.
  
  No início apenas para as casadas ou emancipadas economicamente.

  Em 1945 , 8 de março  se tornou feriado nos países socialistas.

   Nos anos 60 , nos Estados Unidos, o movimento feminista resgata a data, era o tempo da pílula anticoncepcional, a liberdade sexual, a queima dos sutiãns.

  E, em 1975, a data é reconhecida pela ONU para lembrar a lutas sociais, políticas e econômicas das mulheres.

  Há movimentos exclusivos de mulheres pelo mundo como as “Mães da Praça de Maio” , na Argentina, que se reúnem todas as quintas feiras na praça , em frente ao Palácio do Governo, a Casa Rosada, para lembrar o desaparecimento de seus filhos durante a ditadura militar entre 1976 e 1983.

  Há as feministas ucranianas do grupo Femen que protestam contra a discriminação sexual expondo seus corpos nús.

   E há, por todo o planeta o movimento de empoderamento feminino, abraçado pela ONU,  Organização das Nações Unidas,  através da criação da ONU mulheres  que, fundamentada na visão de igualdade consagrada na Carta das Nações Unidas, entre outras questões, trabalha para:

 - eliminação da discriminação contra as mulheres e meninas;
  - empoderamento das mulheres
  - realização da igualdade entre mulheres e homens como parceiros e beneficiários do desenvolvimento, direitos humanos, ação humanitária, paz e segurança.
   (Mais informações em UN Women Brochure)
   Mulheres preparadas, poderosas, empoderadas, atentas e em movimento!
   Vale lembrar que a mulher trabalha ao lado do homem desde sempre, pela existência e crescimento,  e a revelação e reconhecimento públicos de suas habilidades, de seu fazer, não acontece apenas pela instituição de uma data , mas pelo tratamento diário, pelo respeito que deve receber como ser humano, que segue pela vida ao lado de outros seres humanos, vivendo e construindo pela paz e a harmonia.

-"Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho sempre. Quem traz no corpo essa marca, possui a estranha mania de ter fé na vida".

Homenagem às mulheres- Alarp- 09 de março de 2017
Pesquisa e apresentação- Eliane Ratier


domingo, 19 de março de 2017

Livros- O Poder Ultrajovem- Carlos Drummond de Andrade



Costumo publicar algo sobre autores consagrados em datas de seus aniversários.
Assim pesquiso sobre eles e aprendo. Sempre!
Drummond não é novidade, mas este livro sim.
Livro de crônicas escritas para o Jornal do Brasil na década de 70.
O texto que dá o nome ao livro chamou-me a atenção pelo estilo,assunto e leveza.
Ele pode ser lido aqui  http://www.releituras.com/drummond_menu.asp 
Drummond foi magnífico!!
Estas crônicas trazem o sabor de sua época, a linguagem, o cheiro do Rio, sua luz e calor, o humor.
Vontade de lê-las em voz alta, saborear as palavras.
Uma delícia!!!
Não são textos muito populares, então vou tratar de deixar um por aqui.
Este é uma crônica em forma de poesia.

" Falta um disco

Amor, 
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo 
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na lingua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados)
voaram por aí
por alí, por além
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão
cartaz de cinema ,  buraco na rua
e outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
em Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios 
tornados simples de tão semanais
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paul, Bahia
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
( Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido , a forma , a cor.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Principe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.

Um passou bem perto ( contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil
puxou-me pelo braço: Vamos ( ou: plnx),
talvez...?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador
hoje comum na Rua do Ouvidor.

O Poder Ultrajovem- Carlos Drummond de Andrade - Editora Record- o meu comprei na Estante Virtual.

domingo, 12 de março de 2017

Livros- O Filho de Mil Homens- Valter Hugo Mãe



Mais um de Valter Hugo, o autor português que surpreendeu Saramago.
E 2015, dei este livro de presente e comprei para mim o "Desumanização", editados pela Cozac.
A Cozac fechou, choremos todos, e num passeio pela livraria, em 2016, trouxe a irresistível e colorida edição da Globo deste "Filho".
Até agora, o mais bonito livro de Valter Hugo.
Muito estranho, como é próprio dele, que um livro que inicia com a estória de uma anã que morre ao nascimento de seu filho, assunto nada bonito, resulte numa onda de ternura, num amor por seus personagens tão únicos e solitários, como somos todos nós. Únicos e solitários, imersos em enganos e incompreensões, sujeitos às ambiguidades que divergem o coração do corpo social.
Tão lindo!
Neste livro encontrei  traduções perfeitas de verdades íntimas.
Valter Hugo, sempre mais!!
Aproveitem!!

" Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo.
  Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas."

O Filho de Mil Homens- Valter Hugo Mãe- Editora Globo- em todas as livrarias

domingo, 5 de março de 2017

Livros- o baile da vitória- Antonio Skármeta- Editora Planeta




Do autor do famoso " O Carteiro e o Poeta", o " baile" foi livro indicado pelo grupo de leitura.
Livro premiado com o prêmio Planeta 2003.
É um  livro de suspense que se  passa no ambiente urbano de Santiago.
Com a grande experiência do autor em narrar como se prevendo que o livro se tornará filme, Skármeta nos leva a passear pela cidade, conhecer a cultura de seus habitantes e torcer para o anti-herói.
Um livro envolvente cheio de colocações inteligentes e traços culturais históricos do Chile, apoiado em sua característica tríade, política, humor e poesia.
Livro que coloca definitivamente o autor entre os prediletos.
 Trecho:

" Então, sim, a loucura. Assim que a música irrompesse, ela iria dançar-se, e para dançar-se seria mais do que ela mesma. Seria toda a  história de sua vida feita um corpo presente para servia à música. Sem vaidade, humilde, recolhida de espiritualidade como santa Teresa de Jesús. No movimento encontraria a quietude da alma, na quietude imóvel tudo seria movimento. "

O meu livo pedi na Estante Virtual

quinta-feira, 2 de março de 2017

Uma questão de paixão



Ainda sob os vapores carnavalescos, não, não aprendi nenhum samba enredo, conferindo vencedores dos desfiles das escolas de samba,  deu Portela, mas meus olhos marejaram pela Mangueira, vendo reapresentações na televisão, vocês viram o Aladim no tapete voador?, encontro-me, tantas cores!, mais uma vez, inovações!!, maravilhada.
Somos um povo capaz de realizar feitos grandiosos e únicos!
Basta querermos!
Os desfiles de escolas de samba são grande exemplo.
Pertencentes às comunidades de baixa renda, o que pode pressupor baixa escolaridade, as escolas conseguem se organizar para ter recursos financeiros e pessoal de alta qualidade e especialização para realizar o desfiles incríveis no prazo e tempo corretos.
Segundo meu pai, especialista em noticiários,  alguns países já tentaram copiar, sem sucesso,  o maravilhoso espetáculo.
Mesmo contando com avançada tecnologia, custeio, material e mão de obra, não obtiveram sucesso na empreitada.
Ficamos, eu e meu pai, pensando no porquê do fato.
Só me ocorreu um diferencial, a nossa “mão de obra”.
Nas escolas, dos contratados aos voluntários, todos os envolvidos “vestem a camisa da escola”.
Não há apenas trabalho profissional, há paixão envolvida.
E paixão, já disse isso, merece respeito.
O apaixonado não conhece o cansaço, nem a fome, a necessidade. Tem diante dos olhos ofuscados a visão do objeto apaixonante.
Sua vida é por ele e para ele.
Sem razão.
Desta forma, o que acontece nos barracões não é um trabalho, é a realização do desejo apaixonado. Sem limites!
E quando acontece o desfile, é esse sentimento de quase êxtase, ou de êxtase total,  que cada um carrega, seja empurrando o carro alegórico, fornecendo água para os componentes, costurando fantasia, controlando alas, tocando na bateria, sambando no pé, ou como destaque.
Paixão, queridos!
Inigualável!!
Inevitável!!
Aproveitemos!!!


Eliane Ratier, no baticum do ziriguidum

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Livros- No caminho eu conto- Heloísa Martins Alves



Livro de estréia da  queridíssima Heloísa.
Contos breves, a maioria deles tendo a mulher como protagonista em cenários de sonho.
A realização de desejos de maneira intensa.
Contos que são como aperitivos pedindo por mais.
Quem sabe um romance?
Destaco como favoritos "O estilista" e "A atriz"

De "A Atriz"

"Um enfermeiro, senhor do desconforto, aplica uma injeção e a deixa catatônica, fora do mundo, bicho acuado. Uma tênue linha entre a normalidade e a loucura. Essa linha é como um fio de seda pronto para arrebentar, arrebatando mais uma para o solar do esquecimento."

Onde encontrar?
Com a autora ou em feiras de livros de autores independentes.
No caminho eu conto- editora Funpec- Heloísa Martins Alves

O meu foi presente da autora por ocasião do lançamento em novembro de 2016.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Felicidade



Passávamos pelo centro da cidade, pelas ruas onde tive meus locais de trabalho, onde transitei diariamente indo e vindo, fazendo.
Calçadas que guardam o eco dos meus passos.
Foi quando ela me perguntou onde eu tinha sido mais feliz.
Meus olhos encheram d’agua.
A pergunta pairou no ar um instante, até evaporar-se sem resposta.
Fugi para outro assunto.
Tão ridículo descobrir assim, numa pergunta boba, algo triste sobre sua própria vida.
Eu não era feliz!!
Felicidade não existia então.
Tão pouco existia a infelicidade.
Não que a felicidade nunca tivesse existido.
Existiu certamente, mas esqueci-me de percebê-la, identificá-la, torná-la reconhecível.
Foi assim que ela passou pela minha vida e eu não a retive.
Nem lhe dei a chance de uma alô, tão ocupada que estava .
Na vida existia o fazer, o inquestionável trabalho profissional, em duas diversas casas, e o mundo pessoal, das satisfações, das obrigações.
Havia o bom trabalho realizado, o bem feito, a missão cumprida, o gosto por isso e o desgosto pelo falho, pelo erro, pelo não feito também presentes.
Gosto e desgosto , não era uma questão de felicidade, era uma questão do viver.
Vive-se, gostando ou não.
Dias bons, outros ruins, melhores e piores.
Vitórias, derrotas, desafios aceitos e vencidos . Pagos com sangue , suor e lágrimas os devidos tributos, dentro da normalidade.
Acordar, cuidar-se, cuidar dos outros, da casa, do trabalho e tratar de sobreviver até a noite. Dormir bem para acordar com energia para fazer tudo de novo, tentado melhorar em algo.
A vida sem felicidade.
Como eu sei?
Agora eu sei.
Agora eu sei como é a felicidade.
Prestei atenção e reconheci-a quando ela reapareceu.
Retive-a na palma da mão.
Enchi-a de carinho e mimos.
Não admitimos separação.
Os gostos e desgostos continuam acontecendo, mas a felicidade está aqui comigo, independente de onde estou.
Perto, segura, íntima, fácil e simples.
E mesmo sob ameaças, mergulhada até o pescoço na lama escura, eu sei da cor e do sol.
Sei da lua e da música. Sei do amor.
Sei dela, da felicidade.
Sei, para nunca mais me esquecer.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Livros- O Relógio Avariado de Deus- Ozias Filho




Primeiro vou falar do autor.
Brasileiro do Rio de Janeiro, morando em Portugal faz tempo.
Jornalista, fotógrafo, inquieto, ativista.
Conheci-o por seu trabalho de fotografia que compôs , lindamente, com o poema de Iacyr Anderson, "Ar de Arestas",que também recebeu versão dançada.
Por artimanhas da rede de comunicação e generosidade do autor, Ozias participou como jurado em um concurso fotográfico onde eu eu fazia parte da comissão organizadora.
E assim são tecidos os fios...
Ainda não nos conhecemos pessoalmente.
Ozias não se detém nas imagens e nos traz a palavra.
Os poemas do "Relógio", agora lançado no Brasil,  mesclam o cotidiano da grande cidade, sua violência banalizada, Rio, São Paulo, e momentos íntimos que firmam a condição humana, apesar de tudo, no mundo interior, como ponto de abrigo e resistência.
Aqui, um destes momentos.

" em cada linha escrita
inscrevo-me
dissipo o calcário
das veias
:
esses pontos luminosos
que à flor da pele
vêmo-los antes de fazer a barba
no espelho da manhã"

O Relógio avariado de Deus- Ozias Filho
editora Texto Território
pedidos pela internet

Conheçam, também, a mágica fotografia de Ozias Filho.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Livros- A coleira no pescoço- Menalton Braff




Primoroso livro de contos do mestre Menalton Braff.
O gênero é sua especialidade.
Seus contos tem a poesia na medida certa, pincelada, o suficiente para iluminar sem cegar, ou deslumbrar a ponto de mudar o foco da narrativa.
Os fechos são surpreendentes e há sempre a presença da tão humana melancolia acinzentando o enredo.
O primeiro e o último conto trazem o cão como personagem, num requinte de coerência.
Deixo aqui alguns trechos:

- do conto "O caso das digitais perdidas"
"Qualquer biografia tem necessidade de pontos cegos, porque a vida, com janelas escancaradas, é simplesmente impossível."

- do conto "O Zelador"
" O cão estava imóvel e atento.Apesar de suas orelhas caídas, ele tinha a fisionomia jovial e festiva, como de alguém que sente grande prazer no fato de estar vivo."

"São os impedimentos, pensou o zelador ao arrancar com os dentes um bocado do pão. Quase todos inexplicáveis, mas aceitos passivamente."

" A chuva tinha deixado um friozinho alegre no dorso do ar,e, na frente da caverna, abria-se uma várzea coberta de arbustos muito verdes e brilhantes."

Onde achar: A coleira no pescoço- editora Bertrand Brasil- 2006
O meu eu trouxe da Bienal de SP, mas é encontrado na internet e em livrarias.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Livros- Espiral- Alfredo Rossetti

Ah! Alfredo!!
O mago da poesia!!


Espiral é um respiro, um suspiro, um alívio para o dia.
Traz o perfume de outras energias, a possibilidade de fuga para outro patamar.
Obrigada, Alfredo!
Quero mais!

" ajusta
o silêncio

à tua
percepção

sintoniza
teus sentidos

e morre
por um minuto

nada em vida
supera
um renascimento"

Onde achar: com o autor, ou em Feiras de livros locais e regionais.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Livros- O amor tem mil caras- Lidia Aratangy



Nem sei como este livro veio parar aqui, nem sei se já o tinha lido, mas , mesmo com a sensação do já visto foi como vê-lo por primeiro.
Lidia se torna íntima e aborda questões muito pertinentes ao universo feminino, coisas que ficam cutucando e pedindo atenção. Ela dá -lhes esta atenção com sua experiência como psicóloga.
Muito bom tê-la como companhia de reflexão, como fonte de emoção.
" Não se pode esquecer que o amor é uma emoção viva - e a principal característica de tudo que é vivo é precisar de cuidados constantes, porque está sob a permanente possibilidade de morrer."

domingo, 22 de janeiro de 2017

Livros- A Mãe eterna- Betty Milan



Ainda como parte da "busca", aliada a curiosidade desde o lançamento, fiz a leitura do livro da psicanalista Betty Milan sobre sua mãe centenária.
Um relato realista e corajoso na maneira que se expõe.
Exposto nos instrumenta pelo caminho apresentado, as situações enfrentadas, a identificação.
Válido!

" O amor verdadeiro é tão raro como a palavra viático. Designa os víveres de uma jornada."
"A base  da meditação taoista é o não agir, que implica a paciência e a aposta na transformação. Você não sabe o que é taoismo, mas se exercita no não agir sempre que o movimento é arriscado. Sai de cena e deixa o tempo fazer o seu trabalho."

Onde achar: livrarias
.

domingo, 15 de janeiro de 2017

livros- Livro dos avós- Lidia Aratangy



Não, não há motivo para que eu me prepare para a função que me parece longínqua.
É que ando buscando e o livro estava aí, comprado, autografado, sugerido, emprestado e devolvido, então resolvi lê-lo.
Lidia é psicóloga e já tinha visto seus textos em revistas.
Neste livro tem a parceria de um médico pediatra, o dr Leonardo Posternak.
O livro tece considerações sobre as relações familiares com a chegada dos filhos na família jovem.
Analise sempre oportuna. Conhecimento que enriquece o pensar.
Num dos capítulos há uma lista de perguntas para serem respondidas com sinceridade.
Deixo aqui duas bem curiosas:

"o que você gostaria que sua neta viesse a ter que você não tem e sua avó não teve?"
"o que você gostaria que ela tivesse que sua avó teve, mas você não?"