Apesar de ter acumulado um valioso acervo de relíquias sobre Pessoa, Cavalcanti teve de lidar com algumas frustrações durante a pesquisa. Uma delas foi sua tentativa de comprar as cartas trocadas entre o poeta e Ophélia Queiroz, sua grande paixão. O bibliófilo Pedro Correa do Lago revelou que nas cartas há trechos censurados pela família de Pessoa que tratam da “doença feminina”, a menstruação. Lago não vendeu o lote “nem pelo preço de dois carros importados”, segundo Cavalcanti. Em outros casos, porém, sua insistência foi recompensada. O desenho que Almada entregou a Ophélia depois do enterro, Cavalcanti levou menos pelo depósito sem recibo na conta da sobrinha Maria da Glória do que pelo relato de ter visto Pessoa andando pelo Chiado. “Contei que tentei persegui-lo e ao se dar conta ele fugiu”, diz. Quando a mulher de Cavalcanti fez pouco da suposta experiência sobrenatural, dizendo não acreditar em fantasmas, Maria da Glória reagiu: “Pois se tratando de Fernando, acredite!”.
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domingo, 3 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Fernando Pessoa parte 2
OBSESSÃO
O advogado José Paulo Cavalcanti levou 20 anos levantando fontes inéditas de Fernando Pessoa
Um dos aspectos da personalidade de Pessoa desvendados por Cavalcanti é sua vaidade. “Os cobradores viviam na porta da casa dele, mas ele continuava a se vestir no melhor alfaiate”, diz. “A vaidade era tanta que ele driblava com óculos de 3 graus a prescrição do oculista para 12 de miopia.” Para enxergar o mundo à maneira de Pessoa, Cavalcanti deu a um oculista a missão de torná-lo míope de 12 graus com várias lentes e colocou óculos de 3 graus por cima delas. “É um horror. Ele preferia a vida turva a ficar com o olho aumentado pelas lentes grossas.”
O livro também expõe detalhes sobre a visão de mundo (leia as sete regras de vida abaixo) e a sexualidade do poeta. Em seus textos, ele insinua a homossexualidade de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e cria um Álvaro de Campos homossexual assumido (“Olha Daisy, quando eu morrer tu hás de... contar àquele pobre rapazito/que me deu horas tão felizes”) . Antonio Botto, amigo de Pessoa que morreu atropelado no Rio nos anos 50, contou ao escritor Jorge de Sena que Pessoa “olhava de certa maneira para os rapazinhos”. Também revelou ter ficado assustado com o tamanho diminuto do pênis de Pessoa. Em suas supostas comunicações mediúnicas, Pessoa escrevia como Wardour, “homem envergonhado com clitóris em vez de pênis”. “É provável que nunca quisesse se expor, acreditando ser homossexual até os 30 anos”, diz Cavalcanti. O poeta tinha horror à flacidez de seu corpo: “Tenho um corpo tão feio, um focinho envergonhado que ofende a humanidade (referia-se ao nariz) . Meu corpo é um abismo entre eu e eu. O criador do espelho envenenou a alma humana”. Outra aflição eram as dívidas. Precisava de dinheiro, a ponto de não ir à entrega de um dos poucos concursos que ganhou. Explicou o motivo em poemas: “Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse”.
O advogado José Paulo Cavalcanti levou 20 anos levantando fontes inéditas de Fernando Pessoa
Um dos aspectos da personalidade de Pessoa desvendados por Cavalcanti é sua vaidade. “Os cobradores viviam na porta da casa dele, mas ele continuava a se vestir no melhor alfaiate”, diz. “A vaidade era tanta que ele driblava com óculos de 3 graus a prescrição do oculista para 12 de miopia.” Para enxergar o mundo à maneira de Pessoa, Cavalcanti deu a um oculista a missão de torná-lo míope de 12 graus com várias lentes e colocou óculos de 3 graus por cima delas. “É um horror. Ele preferia a vida turva a ficar com o olho aumentado pelas lentes grossas.”
O livro também expõe detalhes sobre a visão de mundo (leia as sete regras de vida abaixo) e a sexualidade do poeta. Em seus textos, ele insinua a homossexualidade de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e cria um Álvaro de Campos homossexual assumido (“Olha Daisy, quando eu morrer tu hás de... contar àquele pobre rapazito/que me deu horas tão felizes”) . Antonio Botto, amigo de Pessoa que morreu atropelado no Rio nos anos 50, contou ao escritor Jorge de Sena que Pessoa “olhava de certa maneira para os rapazinhos”. Também revelou ter ficado assustado com o tamanho diminuto do pênis de Pessoa. Em suas supostas comunicações mediúnicas, Pessoa escrevia como Wardour, “homem envergonhado com clitóris em vez de pênis”. “É provável que nunca quisesse se expor, acreditando ser homossexual até os 30 anos”, diz Cavalcanti. O poeta tinha horror à flacidez de seu corpo: “Tenho um corpo tão feio, um focinho envergonhado que ofende a humanidade (referia-se ao nariz) . Meu corpo é um abismo entre eu e eu. O criador do espelho envenenou a alma humana”. Outra aflição eram as dívidas. Precisava de dinheiro, a ponto de não ir à entrega de um dos poucos concursos que ganhou. Explicou o motivo em poemas: “Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse”.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Fernando Pessoa parte 1
Um dia um homem morre e de ilustre desconhecido, quase anônimo, passa a ter a vida estudada em minúcias. E cada pedaço de papel, lenço de pano, pegadas nas praças, mãos nos corrimãos das casas, é visto como vestígio, indício de passagem ou comportamento.
Da verdade, nem ele soube.
Deixo com vocês o texto que recebi da Mariângela do clube de leitura, sobre um novo livro sobre Pessoa.
Vou dividí-lo em partes para não os cansar.
Ao final do texto há uma pérola de conselhos pessoanos.
Mari, obrigada.
Fernando Pessoa ocultou a identidade em seus versos. Uma nova biografia revela as dúvidas e a sexualidade do poeta português
Norma Curi
DIA A DIA
Fernando Pessoa passeando em Lisboa nos anos 30. A biografia busca motivos cotidianos para a obra do escritor
Criador de identidades imaginárias e de duplos, o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) deixou aos leitores uma obra repleta de armadilhas e pistas falsas sobre sua verdadeira personalidade. A maioria dos estudiosos contenta-se em submergir no mundo de fantasmas inventado pelo autor e decifrar os fascinantes segredos de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e outros de seus 127 heterônimos. O advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti, de 62 anos, preferiu a realidade. Há sete anos, persegue rastros de Pessoa correndo atrás das 31 moradas, 30 escritórios e inúmeras tabacarias frequentadas pelo escritor. Não perdeu um leilão em que uma carta de Pessoa estivesse à venda. Percorreu alfarrabistas em busca de edições raras e livros sobre sua obsessão. “Só num deles comprei de uma vez € 10 mil em livros”, diz. Por outros € 10 mil, levou a coleção de selos do poeta. Montou em casa um minimuseu dedicado a Pessoa, alterou a rotina acordando às 3 horas da manhã para escrever até as 7 e contratou peritos para analisar minúcias da vida do poeta, como o grau de seus óculos, e a causa de sua morte (pancreatite, segundo Cavalcanti, e não cirrose). Ao final de sua empreitada, decidiu compartilhar os resultados de sua pesquisa com o público. Os objetos colecionados estão na exposição de Pessoa no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro, que começa nesta semana. Na abertura, na quinta-feira 24, Cavalcanti lança a mais completa biografia do poeta, Fernando Pessoa, uma quase autobiografia (Record, 750 páginas, R$ 79,90).
Na exposição, os nomes de José Paulo Cavalcanti e sua mulher, Lecticia, aparecem em letras miúdas ao lado de artigos como um bico de pena de Pessoa feito pelo amigo Almada Negreiros no dia do enterro do poeta, uma serigrafia tecida pelo artista Julio Pomar e a primeira e única edição em português publicada em vida (Mensagem, de 1934). Há também o poema “Antinous”, sobre a relação sexual do escravo homônimo com o imperador Adriano, publicado em inglês em 1918 à custa do autor, além de todas as revistas em que o poeta colaborou, dos manifestos que escreveu e do último livro que levava no bolso do pijama para o hospital São Luís dos Franceses, onde morreu em 30 de novembro de 1935 – Sonetos escolhidos, de Bocage.
Assim como Pessoa, Cavalcanti tem uma personalidade multifacetada. Especializado em Direito da Comunicação, é um dos maiores juristas pernambucanos. Estudou na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, publicou 18 livros jurídicos, foi ministro da Justiça do governo Sarney, é membro da Academia Pernambucana de Letras, leitor inveterado, pintor nas horas vagas e músico com vários discos gravados, entre eles um duo com o famoso pianista Arthur Moreira Lima. “Ele toca piano com a mão direita, eu, com a esquerda”, diz Cavalcanti. Em meio a sua rotina cheia de atividades, escreveu parte do livro de frente para o mar, gastando por semana uma caneta Pilot V7 comprada em Lisboa, no verso de cópias dos processos de seu escritório. O resto, completou na copa da casa de Piedade, no Recife, onde a papelada multiplicava-se pela pia, pelo fogão e pela geladeira, enquanto obras de Bach no fone de ouvido o mantinham a salvo das interrupções.
Segundo seu biógrafo, Pessoa escondia sua homossexualidade e tinha vergonha do próprio corpo
Cavalcanti não se intimidou quando, ao começar suas pesquisas, deparou com uma lista de 5.500 livros sobre Pessoa. Diz ter lido 1.000 e saído a campo para encontrar a tabacaria Havaneza da Rua dos Retrozeiros, que inspirou o famoso poema “Tabacaria”. Ali o poeta comprava cigarros Provisórios, Definitivos ou os preferidos Bons. Quando o amigo Mário Sá-Carneiro (1890-1916) vinha a Lisboa, experimentava a Mônaco e as Tabacarias Costa e Inglesa. Frequentador de botecos, nunca voltava para casa sem bater ponto nesses estabelecimentos, pedindo “dois , oito e seis” – um código que Cavalcanti decifrou: “Dois tostões para a caixa de fósforos, oito para o maço de cigarros Bons e seis para o cálice de Macieira”. Em jejum no balcão, fazia em gestos o número sete – “sete tostões, um copo de vinho”. Na hora do almoço, um bife. À noite, tomava sopa no restaurante Martinho da Arcada. O proprietário, Mourão, costumava enfiar um ovo no prato à revelia do cliente, que achava muito frágil. Lá, Pessoa escreveu a maior parte dos poemas.
Da verdade, nem ele soube.
Deixo com vocês o texto que recebi da Mariângela do clube de leitura, sobre um novo livro sobre Pessoa.
Vou dividí-lo em partes para não os cansar.
Ao final do texto há uma pérola de conselhos pessoanos.
Mari, obrigada.
Fernando Pessoa ocultou a identidade em seus versos. Uma nova biografia revela as dúvidas e a sexualidade do poeta português
Norma Curi
DIA A DIA
Fernando Pessoa passeando em Lisboa nos anos 30. A biografia busca motivos cotidianos para a obra do escritor
Criador de identidades imaginárias e de duplos, o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) deixou aos leitores uma obra repleta de armadilhas e pistas falsas sobre sua verdadeira personalidade. A maioria dos estudiosos contenta-se em submergir no mundo de fantasmas inventado pelo autor e decifrar os fascinantes segredos de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e outros de seus 127 heterônimos. O advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti, de 62 anos, preferiu a realidade. Há sete anos, persegue rastros de Pessoa correndo atrás das 31 moradas, 30 escritórios e inúmeras tabacarias frequentadas pelo escritor. Não perdeu um leilão em que uma carta de Pessoa estivesse à venda. Percorreu alfarrabistas em busca de edições raras e livros sobre sua obsessão. “Só num deles comprei de uma vez € 10 mil em livros”, diz. Por outros € 10 mil, levou a coleção de selos do poeta. Montou em casa um minimuseu dedicado a Pessoa, alterou a rotina acordando às 3 horas da manhã para escrever até as 7 e contratou peritos para analisar minúcias da vida do poeta, como o grau de seus óculos, e a causa de sua morte (pancreatite, segundo Cavalcanti, e não cirrose). Ao final de sua empreitada, decidiu compartilhar os resultados de sua pesquisa com o público. Os objetos colecionados estão na exposição de Pessoa no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro, que começa nesta semana. Na abertura, na quinta-feira 24, Cavalcanti lança a mais completa biografia do poeta, Fernando Pessoa, uma quase autobiografia (Record, 750 páginas, R$ 79,90).
Na exposição, os nomes de José Paulo Cavalcanti e sua mulher, Lecticia, aparecem em letras miúdas ao lado de artigos como um bico de pena de Pessoa feito pelo amigo Almada Negreiros no dia do enterro do poeta, uma serigrafia tecida pelo artista Julio Pomar e a primeira e única edição em português publicada em vida (Mensagem, de 1934). Há também o poema “Antinous”, sobre a relação sexual do escravo homônimo com o imperador Adriano, publicado em inglês em 1918 à custa do autor, além de todas as revistas em que o poeta colaborou, dos manifestos que escreveu e do último livro que levava no bolso do pijama para o hospital São Luís dos Franceses, onde morreu em 30 de novembro de 1935 – Sonetos escolhidos, de Bocage.
Assim como Pessoa, Cavalcanti tem uma personalidade multifacetada. Especializado em Direito da Comunicação, é um dos maiores juristas pernambucanos. Estudou na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, publicou 18 livros jurídicos, foi ministro da Justiça do governo Sarney, é membro da Academia Pernambucana de Letras, leitor inveterado, pintor nas horas vagas e músico com vários discos gravados, entre eles um duo com o famoso pianista Arthur Moreira Lima. “Ele toca piano com a mão direita, eu, com a esquerda”, diz Cavalcanti. Em meio a sua rotina cheia de atividades, escreveu parte do livro de frente para o mar, gastando por semana uma caneta Pilot V7 comprada em Lisboa, no verso de cópias dos processos de seu escritório. O resto, completou na copa da casa de Piedade, no Recife, onde a papelada multiplicava-se pela pia, pelo fogão e pela geladeira, enquanto obras de Bach no fone de ouvido o mantinham a salvo das interrupções.
Segundo seu biógrafo, Pessoa escondia sua homossexualidade e tinha vergonha do próprio corpo
Cavalcanti não se intimidou quando, ao começar suas pesquisas, deparou com uma lista de 5.500 livros sobre Pessoa. Diz ter lido 1.000 e saído a campo para encontrar a tabacaria Havaneza da Rua dos Retrozeiros, que inspirou o famoso poema “Tabacaria”. Ali o poeta comprava cigarros Provisórios, Definitivos ou os preferidos Bons. Quando o amigo Mário Sá-Carneiro (1890-1916) vinha a Lisboa, experimentava a Mônaco e as Tabacarias Costa e Inglesa. Frequentador de botecos, nunca voltava para casa sem bater ponto nesses estabelecimentos, pedindo “dois , oito e seis” – um código que Cavalcanti decifrou: “Dois tostões para a caixa de fósforos, oito para o maço de cigarros Bons e seis para o cálice de Macieira”. Em jejum no balcão, fazia em gestos o número sete – “sete tostões, um copo de vinho”. Na hora do almoço, um bife. À noite, tomava sopa no restaurante Martinho da Arcada. O proprietário, Mourão, costumava enfiar um ovo no prato à revelia do cliente, que achava muito frágil. Lá, Pessoa escreveu a maior parte dos poemas.
domingo, 16 de janeiro de 2011
Schumann e os heterônimos
Ora vejam eu aqui, ridiculamente, dividindo com vocês meus encantos de descobertas.
É que sou novidadeira por natureza. Está além de mim.
Em 2010 estivemos envolvidos com os heterônimos de Fernando Pessoa, e agora leio algo sobre o compositor Schumann usar do mesmo artifício.
Mesmo sendo formada em piano, sei pouco sobre música, muito pouco mesmo.
A matéria conta sobre os heterônimos " Florestan", impetuoso e arrebatado e "Eusebios", reflexivo e íntimo, que assinam partituras de Schumann.
Fez-me cosquinhas e vontades, eu esta curiosa sem limites.
Quem souber que conte mais.
É que sou novidadeira por natureza. Está além de mim.
Em 2010 estivemos envolvidos com os heterônimos de Fernando Pessoa, e agora leio algo sobre o compositor Schumann usar do mesmo artifício.
Mesmo sendo formada em piano, sei pouco sobre música, muito pouco mesmo.
A matéria conta sobre os heterônimos " Florestan", impetuoso e arrebatado e "Eusebios", reflexivo e íntimo, que assinam partituras de Schumann.
Fez-me cosquinhas e vontades, eu esta curiosa sem limites.
Quem souber que conte mais.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Sarau Paraler- portugueses- Saramago- Pessoa

clique na foto para ver todo o àlbum
Amigos, o sarau dos Portugueses foi especialíssimo.
Liliana, amiga, atualmente produtora, picou-nos com a idéia de gravar, na Paraler, um programa de tv, e escolheu o momento do sarau para fazer a filmagem inicial, o programa piloto, como eles dizem.
E ali estávamos nós, com duas câmeras fixas, e mais duas móveis, imprensa, microfones e nova disposição de platéia, para fazer acontecer.
E aconteceu.
Fernanda Absamra ( escrevo mil vezes seu nome e sinto que me enganei mais uma vez), minha sobrinha por afinidade, jovem estudante de letras da Unesp de Araraquara, brindou-nos com seu conhecimento e opiniões sobre Saramago, seu objeto de estudo no curso.
Contou-nos sobre o desejo de fazer letras pelo conhecimento de gramática e sua rendição à literatura com a escolha de Saramago.
Fernando Pessoa mereceu opinião profissional da dra Célia Bianco, psiquiatra, que discorreu sobre os heterônimos à luz da ciência, enriquecendo com saberes a nossa noite.
Zéluiz de Oliveira, geminiano e pessoano, brindou-nos com seu conhecimento de Fernando Pessoa e poemas escolhidos com o coração, para o nosso deleite.
Os nossos músicos foram encantadores.
O maestro Paulo Rowlands,por quem tenho grande admiração, atendeu gentilmente ao convite e nos trouxe seus alunos de canto, Bia Junqueira, Davi Tostes e Vivi Reis, que com sua arte, deixaram os presentes flutuando à dois palmos do chão.
A beleza aconteceu desconhecendo limites, estendendo-se musical como um presente, em cada canção.
Os amigos Claudete, contaminada por Fernando Pessoa através do clube de leitura da Palavra Mágica, e Regina Baptista, escritora, deram seus depoimentos sobre o homenageado.
No mais, tudo lindo!
Abençoados por Saramago (que recebia na mesma data homenagem em São Paulo, durante a entrega do prêmio Jabuti) e por Fernando Pessoa, de quem seremos discípulos para sempre, celebramos mais este feliz encontro.
Obrigada, de coração aberto, à todos que fizeram a mágica acontecer.
Beijos em todos
Fernanda Absamra, Bel,Ana Chaves, Caio, Regina, Regina Matiello, dra Célia, Zéluiz, Davi, Vivi, Bia, maestro Paulo, Claudete, Mari, Hedy, Liliana, Marylene, Adriana, Nely,Gilberto,Toninho, Guilherme, Grace, Manoel Simões, Ferriani, Cristiane, Henrique
terça-feira, 17 de agosto de 2010
clube de leitura Fernando Pessoa
Amigos, o clube de leitura da Palavra Mágica se reúne às terceiras terças feiras de cada mes.
Estamos com a tarefa hercúlea de ler os heterônimos de Fernando Pessoa.
O da vez é Álvaro de Campos.
Li-o presa de agitação interior, certa ira, e alguma indignação.
Encontrei ali o espelho e a certificação de que não fui a primeira nem serei a última á sentir-me assim.
Agruras de quem se dispõe á viver.
LISBON REVISITED (1923)
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul o mesmo da minha infância ,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
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