quarta-feira, 20 de julho de 2016

Crime e castigo



O Dostoiévsky no lixo!
Encadernado em capa dura, vermelha, no lixo.
De pronto achei um crime.
Fui, vi, assuntei, voltei e agi.
Peguei o livro.
Novo!!!
Exceto por uma intrigante perfuração feita, possívelmente com um instrumento ponteagudo rombóide sem corte, de capa a capa, atravessando o miolo tenro de alvas páginas, dir-se -ia que pouco havia sido tocado.
O criminoso instrumento atravessou as camadas de papel que cederam, não sem resistência,com determinada intenção.
Pela grossura do objeto, houve, certamente, o emprego de força física.
O ferimento mutilou palavras e frases, comprometendo ideias sem , no entanto, lhes tirar por completo o entendimento e o sentido.
Um crime!!
De certo a vítima teve sua integridade desrespeitada visando sua serventia para fins outros aos quais não era destinada.
Suspeito que tenha sido utilizado para compor algum arranjo decorativo.
Mas nada pode ser afirmado antes da investigação sobre o caso, formulação e hipóteses, coleta de provas, verificação de indícios.
Desolada pelo acontecido, folheei-o com cuidado, atenta aos estragos, a procura de pistas.
Não era virgem.
Um romântico ramo de alecrim marcava, com seu perfume, a página onde se interrompera a leitura.
Foi certamente um crime, mas a vítima, felizmente, teve tempo de ser útil e cumprir sua missão.
Foi lido!
Foi um livro antes de ser um objeto, provavelmente, decorativo.
Houve crime, é certo.
Poderá o fato ser atenuado pela vida plena da vítima?
O castigo?
Talvez não haja.
Pois, mesmo mutilado, jogado na caçamba, serviu de inspiração para este texto, foi mais que lido, foi perpetuado neste escrito.
Para que seguisse o seu curso, resisti à tentação de trazê-lo comigo. Deixei-o lá, entregue ao seu destino, fosse qual fosse.
Quem sabe outro passante, o lixeiro , o morador de rua, alguém ainda tire dele proveito apesar do permanente ferimento, apesar do trágico acontecido.

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