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terça-feira, 17 de agosto de 2010

clube de leitura Fernando Pessoa


Amigos, o clube de leitura da Palavra Mágica se reúne às terceiras terças feiras de cada mes.
Estamos com a tarefa hercúlea de ler os heterônimos de Fernando Pessoa.
O da vez é Álvaro de Campos.
Li-o presa de agitação interior, certa ira, e alguma indignação.
Encontrei ali o espelho e a certificação de que não fui a primeira nem serei a última á sentir-me assim.
Agruras de quem se dispõe á viver.


LISBON REVISITED (1923)

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul o mesmo da minha infância ,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Vinícius de Moraes - poemas inspirados- Eliane Ratier

Histórinha-
Coordeno um dos clubes de leitura da Fundação Palavra Mágica, aqui em Ribeirão Preto.
Nosso tema é poesia e nosso primeiro poeta foi Vinícius.
Já vinha pesquisando sua vida para um outro trabalho, e o mergulho em seus escritos fez brotar de mim este poema na voz do próprio homem sedutor.

Viniciana- à moda de Vinícius de Moraes

E porque te amo
E toda minha mão desenha letra
E toda letra te chama
É que me entrego
Teu e não outro
Só o mesmo eu
Que te venera e canta
Por entre as ramas
Através dos bosques
Tua beleza e ternura
Tua presença e falta
Teu ser que pulsa
Qual estrela quasar
Ofuscando luas

E porque te quero
E todo o meu corpo grita mudo
E o silêncio é loquaz
É que te atraio
E traio teu confiar
Faço de meus braços armadilhas
Do meu riso promessas
Do meu ventre
Sexo de insaciável vício
Da minha voz
Ceceio em teus ouvidos
E te prendo minha
E te faço minha
E te faço feliz por isso.

Eliane Ratier, maio de 2010