domingo, 26 de fevereiro de 2017
Livros- No caminho eu conto- Heloísa Martins Alves
Livro de estréia da queridíssima Heloísa.
Contos breves, a maioria deles tendo a mulher como protagonista em cenários de sonho.
A realização de desejos de maneira intensa.
Contos que são como aperitivos pedindo por mais.
Quem sabe um romance?
Destaco como favoritos "O estilista" e "A atriz"
De "A Atriz"
"Um enfermeiro, senhor do desconforto, aplica uma injeção e a deixa catatônica, fora do mundo, bicho acuado. Uma tênue linha entre a normalidade e a loucura. Essa linha é como um fio de seda pronto para arrebentar, arrebatando mais uma para o solar do esquecimento."
Onde encontrar?
Com a autora ou em feiras de livros de autores independentes.
No caminho eu conto- editora Funpec- Heloísa Martins Alves
O meu foi presente da autora por ocasião do lançamento em novembro de 2016.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Felicidade
Passávamos pelo centro da cidade, pelas ruas onde tive meus
locais de trabalho, onde transitei diariamente indo e vindo, fazendo.
Calçadas que guardam o eco dos meus passos.
Foi quando ela me perguntou onde eu tinha sido mais feliz.
Meus olhos encheram d’agua.
A pergunta pairou no ar um instante, até evaporar-se sem resposta.
Fugi para outro assunto.
A pergunta pairou no ar um instante, até evaporar-se sem resposta.
Fugi para outro assunto.
Tão ridículo descobrir assim, numa pergunta boba, algo triste
sobre sua própria vida.
Eu não era feliz!!
Felicidade não existia então.
Tão pouco existia a infelicidade.
Não que a felicidade nunca tivesse existido.
Existiu certamente, mas esqueci-me de percebê-la, identificá-la, torná-la reconhecível.
Foi assim que ela passou pela minha vida e eu não a retive.
Nem lhe dei a chance de uma alô, tão ocupada que estava .
Na vida existia o fazer, o inquestionável trabalho profissional, em duas diversas casas, e o mundo pessoal, das satisfações, das obrigações.
Havia o bom trabalho
realizado, o bem feito, a missão cumprida, o gosto por isso e o desgosto pelo
falho, pelo erro, pelo não feito também presentes.
Gosto e desgosto , não era uma questão de felicidade, era
uma questão do viver.
Vive-se, gostando ou não.
Dias bons, outros ruins, melhores e piores.
Vitórias, derrotas, desafios aceitos e vencidos . Pagos com
sangue , suor e lágrimas os devidos tributos, dentro da normalidade.
Acordar, cuidar-se, cuidar dos outros, da casa, do trabalho
e tratar de sobreviver até a noite. Dormir bem para acordar com energia para
fazer tudo de novo, tentado melhorar em algo.
A vida sem felicidade.
Como eu sei?
Agora eu sei.
Agora eu sei como é a felicidade.
Prestei atenção e reconheci-a quando ela reapareceu.
Retive-a na palma da mão.
Enchi-a de carinho e mimos.
Não admitimos separação.
Os gostos e desgostos continuam acontecendo, mas a felicidade está aqui comigo, independente de onde estou.
Perto, segura, íntima, fácil e simples.
E mesmo sob ameaças, mergulhada até o pescoço na lama
escura, eu sei da cor e do sol.
Sei da lua e da música. Sei do amor.
Sei dela, da felicidade.
Sei, para nunca mais me esquecer.
domingo, 19 de fevereiro de 2017
Livros- O Relógio Avariado de Deus- Ozias Filho
Primeiro vou falar do autor.
Brasileiro do Rio de Janeiro, morando em Portugal faz tempo.
Jornalista, fotógrafo, inquieto, ativista.
Conheci-o por seu trabalho de fotografia que compôs , lindamente, com o poema de Iacyr Anderson, "Ar de Arestas",que também recebeu versão dançada.
Por artimanhas da rede de comunicação e generosidade do autor, Ozias participou como jurado em um concurso fotográfico onde eu eu fazia parte da comissão organizadora.
E assim são tecidos os fios...
Ainda não nos conhecemos pessoalmente.
Ozias não se detém nas imagens e nos traz a palavra.
Os poemas do "Relógio", agora lançado no Brasil, mesclam o cotidiano da grande cidade, sua violência banalizada, Rio, São Paulo, e momentos íntimos que firmam a condição humana, apesar de tudo, no mundo interior, como ponto de abrigo e resistência.
Aqui, um destes momentos.
" em cada linha escrita
inscrevo-me
dissipo o calcário
das veias
:
esses pontos luminosos
que à flor da pele
vêmo-los antes de fazer a barba
no espelho da manhã"
O Relógio avariado de Deus- Ozias Filho
editora Texto Território
pedidos pela internet
Conheçam, também, a mágica fotografia de Ozias Filho.
domingo, 12 de fevereiro de 2017
Livros- A coleira no pescoço- Menalton Braff
Primoroso livro de contos do mestre Menalton Braff.
O gênero é sua especialidade.
Seus contos tem a poesia na medida certa, pincelada, o suficiente para iluminar sem cegar, ou deslumbrar a ponto de mudar o foco da narrativa.
Os fechos são surpreendentes e há sempre a presença da tão humana melancolia acinzentando o enredo.
O primeiro e o último conto trazem o cão como personagem, num requinte de coerência.
Deixo aqui alguns trechos:
- do conto "O caso das digitais perdidas"
"Qualquer biografia tem necessidade de pontos cegos, porque a vida, com janelas escancaradas, é simplesmente impossível."
- do conto "O Zelador"
" O cão estava imóvel e atento.Apesar de suas orelhas caídas, ele tinha a fisionomia jovial e festiva, como de alguém que sente grande prazer no fato de estar vivo."
"São os impedimentos, pensou o zelador ao arrancar com os dentes um bocado do pão. Quase todos inexplicáveis, mas aceitos passivamente."
" A chuva tinha deixado um friozinho alegre no dorso do ar,e, na frente da caverna, abria-se uma várzea coberta de arbustos muito verdes e brilhantes."
Onde achar: A coleira no pescoço- editora Bertrand Brasil- 2006
O meu eu trouxe da Bienal de SP, mas é encontrado na internet e em livrarias.
domingo, 5 de fevereiro de 2017
Livros- Espiral- Alfredo Rossetti
Ah! Alfredo!!
O mago da poesia!!
Espiral é um respiro, um suspiro, um alívio para o dia.
Traz o perfume de outras energias, a possibilidade de fuga para outro patamar.
Obrigada, Alfredo!
Quero mais!
" ajusta
o silêncio
à tua
percepção
sintoniza
teus sentidos
e morre
por um minuto
nada em vida
supera
um renascimento"
Onde achar: com o autor, ou em Feiras de livros locais e regionais.
O mago da poesia!!
Espiral é um respiro, um suspiro, um alívio para o dia.
Traz o perfume de outras energias, a possibilidade de fuga para outro patamar.
Obrigada, Alfredo!
Quero mais!
" ajusta
o silêncio
à tua
percepção
sintoniza
teus sentidos
e morre
por um minuto
nada em vida
supera
um renascimento"
Onde achar: com o autor, ou em Feiras de livros locais e regionais.
domingo, 29 de janeiro de 2017
Livros- O amor tem mil caras- Lidia Aratangy
Nem sei como este livro veio parar aqui, nem sei se já o tinha lido, mas , mesmo com a sensação do já visto foi como vê-lo por primeiro.
Lidia se torna íntima e aborda questões muito pertinentes ao universo feminino, coisas que ficam cutucando e pedindo atenção. Ela dá -lhes esta atenção com sua experiência como psicóloga.
Muito bom tê-la como companhia de reflexão, como fonte de emoção.
" Não se pode esquecer que o amor é uma emoção viva - e a principal característica de tudo que é vivo é precisar de cuidados constantes, porque está sob a permanente possibilidade de morrer."
domingo, 22 de janeiro de 2017
Livros- A Mãe eterna- Betty Milan
Ainda como parte da "busca", aliada a curiosidade desde o lançamento, fiz a leitura do livro da psicanalista Betty Milan sobre sua mãe centenária.
Um relato realista e corajoso na maneira que se expõe.
Exposto nos instrumenta pelo caminho apresentado, as situações enfrentadas, a identificação.
Válido!
" O amor verdadeiro é tão raro como a palavra viático. Designa os víveres de uma jornada."
"A base da meditação taoista é o não agir, que implica a paciência e a aposta na transformação. Você não sabe o que é taoismo, mas se exercita no não agir sempre que o movimento é arriscado. Sai de cena e deixa o tempo fazer o seu trabalho."
Onde achar: livrarias
.
domingo, 15 de janeiro de 2017
livros- Livro dos avós- Lidia Aratangy
Não, não há motivo para que eu me prepare para a função que me parece longínqua.
É que ando buscando e o livro estava aí, comprado, autografado, sugerido, emprestado e devolvido, então resolvi lê-lo.
Lidia é psicóloga e já tinha visto seus textos em revistas.
Neste livro tem a parceria de um médico pediatra, o dr Leonardo Posternak.
O livro tece considerações sobre as relações familiares com a chegada dos filhos na família jovem.
Analise sempre oportuna. Conhecimento que enriquece o pensar.
Num dos capítulos há uma lista de perguntas para serem respondidas com sinceridade.
Deixo aqui duas bem curiosas:
"o que você gostaria que sua neta viesse a ter que você não tem e sua avó não teve?"
"o que você gostaria que ela tivesse que sua avó teve, mas você não?"
domingo, 8 de janeiro de 2017
Livros- Mamãe e o sentido da vida- Irvin Yalom
Mais um do "garimpo da Bienal", do mesmo autor de "Quando Nietsche chorou", "Mamãe" traz relatos de casos clínicos do psiquiatra Irvin Yalon, devidamente modificados para preservar identidades e servir, inclusive, a propósitos didáticos.
Adorei!!!
Para quem anda sempre em busca, saber mais sobre este mecanismo obscuro e muitas vezes imprevisível que é o cérebro e sua maneira de formular pensamentos e crenças a partir de um sem número de referências, é colocar mais uma pecinha no quebra-cabeças.
As histórias são interessantes e a abordagem parcialmente técnica só aumenta este interesse.
Quero mais!!!
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Poema homenagem à Heloísa Alves
Heloísa Martins Alves é esta amiga aí da foto.
Dá aulas e coordena projetos na escola Otoniel Mota, dentre eles o Combinando Palavras que em 2017 está se espalhado por outras escolas , o Ribeirão Cultural e a Incubadora Cultural.
Parceira de primeira e de toda hora, Heloísa é pessoa valorosa e generosa no seu fazer.
Como homenagem e agradecimento, fiz este poema, que foi lido na noite do lançamento de seu livro, onde tive a honra de fazer a leitura de um de seus contos.
De Eliane para Heloísa, com carinho.
Heloísa
Marca de elegância
Alem do vestir e do caminhar
Elegância no ser
Mulher exemplar
Com você quero aprender
Na tua voz grave
Há segredos
Que fazem teus olhos mais negros
E nos deixam atentos
Para a revelação
Generosa
Criativa
Agregadora
Sonhadora
Protagonista
Bom é fazer gente brilhar
Bom é aplaudir
Bom é bem trabalhar
Bom é ter-te Heloísa
Como par
domingo, 1 de janeiro de 2017
Livos- Altares- Magia e Ritual- D.J. Conway
Ainda dos que comprei na Bienal, este livro é um bom guia para quem já se interessa pelo assunto.
Para mim, foi a confirmação de algo que faço há muito tempo de maneira intuitiva e uma inspiração para continuar fazendo com maior propriedade.
Fazer para o bem, pelo bem, para si e para todos.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Dezembro de Olavo Bilac
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, o “ Príncipe dos
poetas” é o nosso poeta do mês.
Nasceu em 16 de dezembro
de 1865 e faleceu em 28 de dezembro de 1918 na cidade do Rio de Janeiro.
Poeta da escola parnasiana, muito conhecido e lido por
estudantes , referendado em livros escolares.
Primou pela excelência da linguagem, ritmo, e métrica rígida nos poemas.
Seu nome é um verso Alexandrino, 12 sílabas acentuadas a
sexta e a décima segunda.
Dedicou especial atenção aos poemas para crianças e os de
caráter cívico.
É autor da letra do Hino à Bandeira.
Nacionalista, participante ativo da política nacional,
Bilac, embora tenha iniciado dois cursos superiores, medicina e direito, não se
formou em nenhum.
Mesmo assim recebeu o diploma de professor honorário da
Universidade de São Paulo, pouco antes de falecer.
Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras,
criando a cadeira 15 de Gonçalves Dias.
Hino à Bandeira
Salve lindo pendão da esperança!
Salve símbolo augusto da paz.
Tua nobre presença à lembrança.
A grandeza da Pátria nos traz.
Refrão
Recebe o afeto que se encerra.
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
2
Em teu seio formoso retratas.
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.
(Refrão)
3
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever,
E o Brasil por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser!
(Refrão)
4
Sobre a imensa nação brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre sagrada bandeira,
Pavilhão da justiça e do amor!
(Refrão)
Ouvindo estrelas
Bom poema para decorar e dizer para a namorada ou na
festa de final de ano do trabalho.
OUVIR ESTRELAS- Olavo
Bilac
"Ora (direis) ouvir
estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a
noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora:
"Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."
(Poesias, Via-Láctea,
1888.)
Poema de Natal
Natal
Jesus nasceu! Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria...
Não houve sedas, nem cetins, nem rendas,
No berço humilde onde nasceu Jesus...
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.
Sobre a palha, risonho e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino Jesus, que está cercado
Dos animais de pobre estrebaria.
Não nasceu entre pompas reluzentes:
Na humildade e na paz desse luar,
Assim que abriu os olhos inocentes,
Foi para os pobres seu primeiro olhar.
No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Vêm cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.
Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!
Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve, Deus da Humanidade e da Pobreza,
Nascido numa pobre estrebaria.
Jesus nasceu! Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria...
Não houve sedas, nem cetins, nem rendas,
No berço humilde onde nasceu Jesus...
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.
Sobre a palha, risonho e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino Jesus, que está cercado
Dos animais de pobre estrebaria.
Não nasceu entre pompas reluzentes:
Na humildade e na paz desse luar,
Assim que abriu os olhos inocentes,
Foi para os pobres seu primeiro olhar.
No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Vêm cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.
Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!
Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve, Deus da Humanidade e da Pobreza,
Nascido numa pobre estrebaria.
Olavo
Bilac
Língua portuguesa
Olavo Bilac
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
A Boneca
Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.
Dizia a primeira : “É minha!”
— “É minha!” a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.
Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.
Tanto puxavam por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.
E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando a bola e a peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca ...
A Avó
A avó, que tem oitenta anos,
Está tão fraca e velhinha!...
Teve tantos desenganos !
Ficou branquinha, branquinha,
Com os desgostos humanos.
Hoje, na sua cadeira,
Repousa, pálida e fria,
Depois de tanta canseira:
E cochila todo o dia,
E cochila a noite inteira.
Às vezes, porém, o bando
Dos netos invade a sala ...
Entram rindo e papagueiando :
Este briga, aquele fala,
Aquele dança, pulando ...
A velha acorda sorrindo.
E a alegria a transfigura;
Seu rosto fica mais lindo,
Vendo tanta travessura,
E tanto barulho ouvindo.
Chama os netos adorados,
Beija-os, e, tremulamente,
Passa os dedos engelhados,
Lentamente, lentamente,
Por seus cabelos doirados.
Fica mais moça, e palpita,
E recupera a memória,
Quando um dos netinhos grita :
"Ó vovó ! conte uma história!
Conte uma história bonita!"
Então, com frases pausadas,
Conta histórias de quimeras,
Em que há palácios de fadas,
E feiticeiras, e feras,
E princesas encantadas ...
E os netinhos estremecem,
Os contos acompanhando,
E as travessuras esquecem,
- Até que, a fronte inclinando
Sobre o seu colo, adormecem ...
Está tão fraca e velhinha!...
Teve tantos desenganos !
Ficou branquinha, branquinha,
Com os desgostos humanos.
Hoje, na sua cadeira,
Repousa, pálida e fria,
Depois de tanta canseira:
E cochila todo o dia,
E cochila a noite inteira.
Às vezes, porém, o bando
Dos netos invade a sala ...
Entram rindo e papagueiando :
Este briga, aquele fala,
Aquele dança, pulando ...
A velha acorda sorrindo.
E a alegria a transfigura;
Seu rosto fica mais lindo,
Vendo tanta travessura,
E tanto barulho ouvindo.
Chama os netos adorados,
Beija-os, e, tremulamente,
Passa os dedos engelhados,
Lentamente, lentamente,
Por seus cabelos doirados.
Fica mais moça, e palpita,
E recupera a memória,
Quando um dos netinhos grita :
"Ó vovó ! conte uma história!
Conte uma história bonita!"
Então, com frases pausadas,
Conta histórias de quimeras,
Em que há palácios de fadas,
E feiticeiras, e feras,
E princesas encantadas ...
E os netinhos estremecem,
Os contos acompanhando,
E as travessuras esquecem,
- Até que, a fronte inclinando
Sobre o seu colo, adormecem ...
Texto publicado originalmente no blog da Revide.
domingo, 25 de dezembro de 2016
Livros- Os Bichos- Miguel Torga
Livro lido pela (bendita) indicação do grupo de leitura.
Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, médico, autor português ,nasceu em 12 de agosto de 1907 e faleceu em 1995.
Olhando sua biografia vejo que o menino Adolfo, de origem humilde teve experiências em tenra idade, vindo até morar no Brasil, onde trabalhou na lavoura e foi educado pela mão de um tio.
O tio reconhecendo-lhe o talento para o estudo devolveu-o a Portugal para cursar a universidade.
Começou a publicar ainda estudante e escreveu mais de 50 livros, sendo indicado para o Nobel e ganhador do prêmio Camões de 1989.
Sua grande produção literária foi também grandemente diversificada, prosa, poesia, dramaturgia, romance, contos.
Seu texto é poesia pura, seja na melodia , seja nas imagens e ideias.
Como é bonito ver o domínio que parece espontâneo.
Penso que por ser escrito no português original, há ainda mais poesia pela sutilezas da língua.
Todo o livro é de grande beleza e creio que sua leitura repetida nos mostre cada vez mais encantos.
Destaco o Cega-Rega, sobre a cigarra e Jesus, delicado e terno, onde Jesus menino se depara com o nascimento de um passarinho.
Do conto" Bambo", nome do protagonista que é um sapo.
" Viessem ver os domínios do batráquio reluzente de luar e alheado como um poeta...Quem na freguesia inteira passeava assim cheio de calma e compenetração no silêncio carregado de estrelas?
...
E a verdade é que nunca encontrara tanto sentido e beleza às coisas que o rodeavam, como naquelas horas silenciosas Nelas até as próprias sombras faziam confidências ao entendimento..."
Onde achar o livro: o meu comprei na estante virtual
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Convivendo 3
Tá, eu sei. De novo!!
É que estou tentando entender , assimilar, por em prática.
Daí passo e repasso com vocês as idéias e as escrevo para não me esquecer e assim deixar uma trilha pronta, um caminho com migalhas de pão, que guie a saída da floresta, do labirinto.
Durante um dos cursos de teatro que fiz, executamos um exercício muito interessante.
Sabemos que , quanto mais entrosados os atores , melhor o resultado no palco.
Por isso o exercício visava aprender a perceber e adequar os ritmos individuais.
Era assim: dois a dois, ombro a ombro, os pares em fila, um atrás do outro. O primeiro par começava a pular, saltitar, e depois de determinado tempo, o segundo, e assim sucessivamente. Passado o ritmo para o par subsequente os primeiros deixavam de pular. Ao final da fila o exercício voltava, do último ao primeiro par, dificultando a percepção que acontecia sem o auxílio da visão.
Uma riqueza de atividade!!
Primeiro é necessário que você perceba o ritmo de seu par e que , como par, deseje que se iguale.
Isso demanda um ajuste. Quem tem mais facilidade, ou disponibilidade, segue o ritmo alheio, ou, de comum e mudo acordo, abandona-se o próprio ritmo para atingir outro que seja confortável a ambos.
Isso de maneira instantânea.
Depois é necessário perceber o ritmo do par anterior para dar continuidade ao exercício.
Fascinante!!
Há identificações imediatas, pares que se acertam e acertam de primeira, mas o mais comum é que a prática aperfeiçoe o ato.
Se mantivermos o parceiro ao longo de muitos exercícios há boa chance de sucesso.
A convivência é mais ou menos assim!!!
Se há o desejo de acertar é preciso insistir , errar, acertar, praticar para aperfeiçoar.
Uma tarefa de vida, já que , como humanos, estamos sempre mudando.
Boa sorte para todos!!
domingo, 18 de dezembro de 2016
Livros- O Livro de Rovana- Quando eu era surda-muda- Joaquim Maria Botelho- editora Passavento
Joaquim Maria Botelho, jornalista renomado, foi presidente da UBE, União Brasileira de Escritores, na época em que foi fundado o Núcleo de Ribeirão Preto do qual sou coordenadora.
Foi assim que o conheci, Presidente.
Depois conheci sua palavra em oratória, discursos, palestras, por fim sua escrita, em antologias, romance.
"O Livro de Rovana" é uma biografia baseada nos cadernos de sua irmã deficiente visual e auditiva portadora da Síndrome de Alport.
Um livro rico!!!
Joaquim usa os textos de sua irmã para contar-nos a história de sua família em seu tempo.
Uma história que merece ser contada por muitos motivos, por ser retrato de uma época, por relatar histórias de pessoas valorosas que enfrentaram dificuldades e as venceram, brilharam.
A história de Rovana é especialmente útil para quem lida com deficiências, sejam quais forem.
É uma história de possibilidades.
É uma história inspiradora!
O trecho a seguir fica quase no final do livro e relata poeticamete um momento de uma viagem empreendida pelo autor na adolescência.
" Cada um de nós tinha a sua estrela particular, simbolizando a namorada, nas noites em que os astros cintilantes eram a única luz disponível. O mundo, ancho, cheio de perigos e de encantos, se apresentava para nós e o interpretávamos com a leveza e o descompromisso de quem tem dezessete anos, ama e é feliz.
Cantávamos. E sentíamos saudades."
Onde achar:Livraria da Folha e Livraria Cultura, pela internet
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